.As Maravilhas do País de Alice.

Quarta-feira, Abril 27, 2005

"O desconforto anda solto no mundo
E você sempre junto
E você sempre atento
Ao que menos importa."
(Zélia Duncan)



Hoje o meu desconforto vem de uma dor bem antiga e por isso conhecida de minhas vontades incompletas.


Acabei de chegar da escola. De uma das escolas estaduais em que trabalho. Professora de arte. Há quem diga que distribuo pérolas aos porcos. Apesar de todos os percalços, nunca pensei assim. Eu realmente acredito que posso fazer diferença, ainda que milimétrica, na vida de alguma dessas pessoas. Otimismo? Presunção? Esperança. Eu gosto de olhar nos olhos. Eu gosto de chamar pelo nome. Eu gosto de dar boa noite. Eu gosto de entrar numa sala sabendo que ali terão algumas pessoas que vão sorrir pela primeira vez no dia, mesmo estando cansadas. E que esse sorriso vai ser pra mim. Ainda que às oito e meia da noite. Gentileza que gera gentileza que gera esperança de amanhã ser um dia melhor.

Eu não ando satisfeita com minha vida. Estou bem longe de ter todas as coisas que gostaria. De viver os momentos que gostaria. Até mesmo de comer certas coisas que eu gostaria. É uma insatisfação antiga, mas que antes parecia ficar amortecida pela rapidez dos dias banais que se sucediam no meu calendário. Insatisfação que hoje parece incomodar mais. Como se eu percebesse enfim que o tempo anda passando faz tempo e que a cada dia que passa vai ficando mais longe a possibilidade de se ter todo um tempo pela frente. Aos vinte e seis anos, eu acho que tenho feito muito pouco pra tudo aquilo que sonhei um dia e eu sei que não estou sendo pessimista quando afirmo isso pra você. Ou pra mim. Como em prova de vestibular que por mais que você tenha planejado o tempo, chega aquela hora em que você pensa: não vai dar mais tempo pra fazer a redação.

Não sei te dizer porque, mas parece que hoje dói mais pensar que talvez no fim das contas, eu tenha que entregar parte da minha vida em branco porque demorei tempo demais em questões de menor importância. Sentimento de perda, apesar do sinal ainda não ter batido. Incerteza doída de não ter me entregado toda àquilo hoje vejo ser a resposta mais certa. Coisa feia é a gente colocar culpa nos outros. E eu tô tentando resolver essas coisas comigo. E não está sendo fácil.

Saudosa que ando daquele personagem que tem todo um país de maravilhas à sua espera.


Sexta-feira, Abril 15, 2005


"Posso, tudo posso
Naquele que me fortalece."


Eu sei que falta um pouco para chegar maio e até pensei em esperar para postar numa data mais específica. Mas é que este poema me atingiu ainda agora e fiquei com muita vontade de trazê-lo pra mim. E pra vocês.

De adormecida que andava, pelo menos parte de algo que trago em mim parece ter sido despertada por sons bonitos visitados ainda ontem. Palavras intensas que me sacodem agora. Suspiros que eu deixo guardados para amanhã.

Ando difusa demais.

Meio turva.
Meio diluída.
Totalmente abstrata.

Ando meio perdida no que diz respeito à minha arte, embora não saiba exatamente o que ela quer de mim. Ou eu dela. Perdidas que estamos uma da outra.

Sinto saudade do tempo em que poesia era ar respirado a toda hora e todo deslumbre era pouco de diante de detalhes delicados imperceptíveis a toda gente. Às vezes sinto que deixei quebrar meu cristal mágico capturador de todas as coisas, passando a andar desapegada das sutilezas da vida. Pedaços de beleza que eu julgava saber juntar e combinar tão bem. Hoje parece que tudo anda meio se descolando, como adesivo que vai perdendo utilidade aos poucos. Como distância que chega discreta trazendo o desconforto do esquecimento.

Obrigada por virem.
Espero que gostem do poema.
Tem bastante de mim nele também.


"Árvores? Diversas, indefinidas, nenhuma.
E dependendo do terreno onde planto, florescem, fenecem e às vezes crescem.
Filhas, algumas paridas, outras quase criadas.
Livros? Em gênero e número indeterminados, li, guardei e vendi, a maior parte.
Agulhas, contas, linhas e miçangas de se perderem nos dedos,
caídas em minha caixa de vidrilhos.
E ainda me perco no tempo, nas tramas e na memória.
Distraída, sou quase esquecida. Confusa até.
No mais, me sinto perdida.
Cachos, tenho alguns.
Hoje os cabelos são ruivos, mas foram nascidos pretos para depois com o tempo, acastanharem-se.
As mãos só sabem escrever.
Minto.
Os olhos escrevem.
As mãos acariciam, quando alguém quer delas se apropriar.
Falta-me o alguém.
Os olhos foram perdidos.
Quem souber, devolva, se os encontrar.
Sou mulher de prendas, dadivosa.
Dou sorrisos e gargalhadas como o sol de fim de tarde, nos dias e nas horas.
Dou cantos e encantamentos a quem acredita em meus pedaços.
Dou chuva e concedo o sol para os olhos de quem me vê.
Entrego o vento de presente a quem ventar, mas que seja vento de ventania, que troca tudo e nunca volta ao mesmo lugar.
Gosto de achar bocas que praticam beijos e ficar com os lábios inchados de beijar.
Mas aí também já são vontades e hoje me propus a inventariar.
E assim termino aqui, inventários de maio, mês de Maria,
primeiros de alguns, pouco de todos."


(Maria Odila em www.digressivamaria.blogspot.com)


Quarta-feira, Abril 06, 2005


"Você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui."
(Cidade Negra)


Essa história do falecimento do Papa me deixou com uma saudade monstro de Roma.



"Quando paro pra pensar nisso, é só fechar os olhos que ainda sinto a mesma sensação. O mesmo cheiro. Os mesmos sons. Roma se despedindo de mim sob um céu escuro de dia ainda não raiado. Ainda sou capaz de chorar da mesma forma quando lembro de todas aquelas luzes ainda mais reluzentes a passarem por mim uma última vez. Alguém tem noção do que é o Coliseu à noite iluminado? O ônibus vai seguindo por aquelas ruas um tanto estreitas e o som do Cidade Negra nunca esteve tão perto de meu coração. É verdade. Ninguém nunca irá saber o quanto eu caminhei pra chegar até aqui. A sensação de se ter um sonho realizado é como um soco no estômago que vira beijo. É como aquele aperto no peito que traz a falta de ar pra logo depois virar desmaio. Eu que ainda suspiro por ela. Sensação que eu tenho ainda agora. Uma saudade tão grande de algo que foi meu por tão pouco tempo que mais parece coisa de mulher mal amada jogada pra escanteio antes do jogo terminar. É isso. Sinto saudades. Saudade daquela que machuca e você não pode fazer nada. Só se distrair pra dor passar. Eu volto aos livros. Às fotos. E me sinto como namorada que ainda não estava pronta pro fim do namoro chegar. Eu queria voltar pra ela. Conseguir ligar a tv e ficar imune. Não reparar que ela anda aparecendo por todos os lados e que anda me fazendo um baita ciúme."
(.Com açúcar e com afeto. 06/04/2005.)


E pensar que vai demorar um pouco pra eu poder sequer sonhar em voltar a essas terras que inspiram deslumbre. Afinal, nunca haverá um lugar como Roma.

Beijo pra vocês. E perdoem o açúcar.
Ando saudosa demais.


p.s: charge 'roubada' do blog da Rô: www.garimpandobeleza.blogger.com.br