.As Maravilhas do País de Alice.

Domingo, Novembro 20, 2005


"Perfeição demais me agita os instintos.

Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso."
(Zélia Duncan e Moska)


"Mas meus desejos não eram nada complicados. Queria poder dormir com brisa gelada de janela aberta. Queria um canto pra chamar de seu. Queria não mais perder as canetas azuis com as quais costuma prender o cabelo. Queria ser um pouco menor e queria ter um carro. Queria pode estar sempre perto do mar, ainda que fosse só pra olhar. Queria nunca mais passar pela situação desagradável que é ter um soluço e seis graus de miopia. Queria enxergar melhor, as coisas e as pessoas. Queria tanta coisa e ao mesmo tempo não queria nada que chegava a dar enjôo em quem teimasse acompanhar de perto. Quereres tão incertos de uma alma à procura de tanta coisa. E de nada. Porque se quisesse encontrava. Ainda que demorasse. Ainda que não viesse. Ainda que tudo conspirasse a favor de seu avesso. Tinha preguiça de pensar. E sentia muito calor. Não se acostumava com a sauna de dezembro que sempre fazia naquela cidade. E o beijo estalava na boca como copo que se quebra em cima da pia. Simples assim. Andava desejando coisas estranhas. Mundos distintos. Queria provar do próprio grito pra ver se libertava a alma. E tudo voltava ao cárcere. Dependente que andava das pessoas. Não sabia como achar o caminho de seu próprio labirinto e quase torceu o menisco tentando se fazer voar. Porque era teimosa. Porque queria ver como era. Porque tinha curiosidade de cachorro farejador. Ainda que muitas vezes não gostasse dos cheiros que apareciam em seu caminho. Escrevia coisas que ninguém entendia, mas que todo mundo gostava pois pareciam bonitas. Frases de efeito que sempre soube usar muito bem. Mas era estranho se acostumar com o acaso que às vezes vinha se instalar. Acaso cheio de silêncio e súplica. Volte a escrever. Volte a desenhar. Volte para o seu lar. Mas ela fingia não escutar. Ela fingia não entender os sinais. Ela decidia que a vida não tinha mais graça desde aquela noite em que ela não conseguira voar. Maldito medo de altura. Maldito espasmo. Estranho momento. Porque coragem nunca foi seu forte. Menina estranha que era. Ora implicante ora boneca com vassoura na mão a espalhar todo o seu mal. Risco inerente até para quem conhecesse muito bem seu doce, inútil e irascível manual."


Quinta-feira, Novembro 10, 2005


"Eu poeto.
Tu poetas.
Ele poeta.
Nós poetamos.
Vós poetais.
Eles poetam."



"Escrevo porque ouço essas vozes coloridas e irrequietas a brincarem de pique dentro do quintal do meu ouvido obediente."

"Escrevo porque não sei cantar. Pintar. Desenhar ou mentir. Escrevo porque espero o final chegar. Escrevo porque não entendo. E escrevo quando não quero. Escrevo quando só o que resta é o som insistente do ventilador que fica suspenso no teto do meu pequeno e singelo quarto. Escrevo porque não sei doer em alto e bom som. Escrevo porque é mais fácil que fazer análise. E mais barato. E mais feliz. Escrevo porque não sei dizer não a certos desejos incertos. Escrevo porque o fim de uma página é como voltar para casa depois de um dia cheio na rua. Escrevo porque foi a solução encontrada pelo escape da minha alma quando ela se transborda toda por cantos nada poéticos. Escrevo porque gosto de ver o que será escrito, como pirata que segue a trilha do mapa sedento de encontrar tesouro. E eu sigo a buscar o xis. Escrevo porque preciso sempre da próxima frase a me fazer companhia em madrugadas escuras. Escrevo porque não consigo dizer. Nem quando quero. Escrevo porque me entendo com o verbo antes mesmo da palavra chegar. Escrevo porque não vejo outra saída. Escrevo porque você gosta. E volta. E me espera voltar.

Escrevo porque por ora é só o que se desejar."

(".Alguns motivos pelos quais eu ainda escrevo. E poeto." 08/11/2005 )



Terça-feira, Novembro 01, 2005



"Arame tenso sob o sol
Quem vê amor ali?
Quarando, secando, esticado sob o sol
Pronto pra molhar de amor
Arame espesso risca o céu
Quem vê amor ali?
Rasgando, rompendo, atravessando o céu
Pra descansar da dor

Rebenta a bolsa, revela ao mundo a cabeça
Quem a tiver que mereça a coroa."
(Bi Ribeiro - Herbert Vianna)


Eu gosto de postar quando alguma impressão simpática vem me visitar no meio da semana.


Só que até agora nada.



Nada.





Nada.






Nada mesmo.






Nenhum cheiro.

Nenhum filme.

Nenhuma predileção.



Ah!





Lembrei.





Eu cortaria meus cabelos por mais um pedaço daquela torta de limão.






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